Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Nasceu de uma batucada em campo de várzea em 1971, subiu ao Grupo Especial em quatro anos, venceu oito vezes — e foi rebaixada pela primeira vez na história em 2026, campeã vigente, por não entregar um formulário no prazo. A saga azul, rosa e branca da Freguesia do Ó.
A batucada no campo de várzea: a origem
O carnaval pode nascer de muitos lugares — de uma briga de bar, de um terreiro, de uma dissidência política. O da Rosas de Ouro nasceu de um time de futebol. No final da década de 1960, na Vila Brasilândia — bairro da periferia da zona norte de São Paulo, historicamente marcado por alta desigualdade social — um grupo de quatro amigos animava as partidas do Glorioso da Brasilândia, time de várzea da região, com uma batucada que crescia a cada jogo.
José Luciano Tomás da Silva, João Roque “Cajé”, José Benedito da Silva “Zelão” e Eduardo Basílio eram os quatro. Empolgados com a receptividade do público, decidiram fundar uma escola de samba. Em 18 de outubro de 1971 nascia a Sociedade Rosas de Ouro. De início, a escola não tinha dinheiro para fantasias: precisou da ajuda dos comerciantes da Brasilândia para sair às ruas no primeiro desfile. O que esse grupo humilde e criativo levou ao carnaval, nas décadas seguintes, valeria oito títulos do Grupo Especial.
A origem do nome — e das cores
O nome foi inspirado numa condecoração papal: o buquê de Rosas de Ouro, oferecido pelos papas desde o século VIII a princesas virtuosas e igrejas notáveis. O Papa Gregório II instituiu o costume em 730; a Princesa Isabel teria sido indicada pelo Papa Leão XIII após a Lei Áurea em 1889. Já as três cores oficiais — azul, rosa e branco — não foram planejadas: eram para ser apenas rosa e branco. Em 1972, a irmã de Luciano foi comprar tecidos para o desfile e encontrou uma liquidação de azul turquesa. Sem dinheiro para escolher, comprou tudo. A predominância do azul ficou — e nunca mais saiu.
A ascensão meteórica: do Grupo 3 ao Especial em 3 anos
A Rosas de Ouro desfilou pela primeira vez em 1973, no segundo grupo, terminando em quarto. Em 1974, venceu o segundo grupo e subiu para o Grupo 1 — o atual Grupo Especial. Em apenas dois anos de desfiles, a escola havia alcançado a elite do carnaval paulistano. No primeiro ano entre as grandes, em 1975, terminou com o vice-campeonato — um resultado extraordinário para uma estreante. Desde então, em mais de duas décadas consecutivas no Especial, a Rosas raramente terminou abaixo da sexta colocação.
Os primeiros sambas da escola foram escritos pelo compositor Zeca da Casa Verde — um dos nomes mais importantes da história do samba paulistano, que também contribuiu com outras agremiações da zona norte. Essa parceria com Zeca daria à Rosas uma identidade musical refinada desde cedo, culminando no primeiro título, em 1983.

A Cidade do Samba e o traslado para a Freguesia do Ó
A grande virada estrutural da escola aconteceu no final dos anos 1970. O eterno presidente Eduardo Basílio lutou por anos para construir uma sede digna da escola que ajudara a fundar. Em 1979, foi inaugurada a quadra da Rosas de Ouro na Rua Coronel Euclides Machado, no bairro da Freguesia do Ó — próxima à Ponte da Freguesia, na zona norte. A sede foi batizada de Cidade do Samba, e foi considerada à época uma das mais modernas e bem estruturadas do país.
A mudança criou uma tensão simbólica que persiste até hoje: a escola nasceu na Brasilândia — um dos bairros mais pobres de São Paulo — mas cresceu e se consolidou na Freguesia do Ó, bairro vizinho de perfil mais diversificado. Ao longo dos anos, essa dualidade gerou uma percepção, repetida por muitos no mundo do samba, de que a Rosas seria uma escola de classe média, mais elitizada que suas rivais. Uma percepção que Angelina Basílio, filha do fundador e atual presidente, questiona com veemência — e que ficou célebre em sua reação ao conquistar o título de 2025.
1983: Nostalgia e o primeiro título
Após oito anos no Grupo Especial sem conquistar o título, a Rosas de Ouro venceu em 1983 com o enredo “Nostalgia” — um mergulho saudosista na São Paulo do início do século XX. Foi o último samba que Zeca da Casa Verde compôs para a escola, e veio coberto de simbolismo: a escola que nascera na periferia da zona norte homenageava a metrópole que a acolheu, olhando para o passado com afeto e elegância.
O título de 1983 inaugurou uma característica que se tornaria marca registrada da Rosas: o amor pela cidade de São Paulo como tema. Nos anos seguintes, a escola voltou à avenida com a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (bicampeonato em 1984), a Avenida São João, os imigrantes que fizeram a cidade, os Demônios da Garoa, Paulo Machado de Carvalho e até uma visão futurística da cidade um século adiante. Nenhuma outra escola do carnaval paulistano tem com a própria cidade uma relação tão recorrente e apaixonada.
O tricampeonato de 1990-91-92 e o auge da era Basílio
O período mais glorioso da história da escola concentrou-se entre 1990 e 1994. Quatro títulos em cinco anos, incluindo o tricampeonato consecutivo de 1990, 1991 e 1992 — o único da história da Rosas de Ouro. A escola entrou nesse período com alegorias cada vez mais elaboradas e sambas de alta qualidade, consolidando a fama de “escola de luxo” que atrairia tanto admiradores quanto críticos.
O sexto título, em 1994, foi também o último da era Eduardo Basílio no pico de seu reinado. Nos anos seguintes, a escola se manteve competitiva — vice-campeonatos, terceiros lugares, desfiles sempre acima da média —, mas o título voltaria somente 16 anos depois, em 2010. Eduardo Basílio acompanhou esse período de olhos abertos e coração pleno: trabalhou pela escola até adoecer, em 2003, quando passou o comando à filha. Morreu em outubro daquele ano, sem ver o título que sua gestão havia preparado o terreno para conquistar.
Eduardo Basílio: o eterno presidente
Poucos personagens do carnaval paulistano são tão identificados com uma escola quanto Eduardo Basílio o é com a Rosas de Ouro. Fundador, presidente por 32 anos, arquiteto da Cidade do Samba, construtor da identidade social da escola — que na sua gestão retirou todas as crianças dos semáforos da Freguesia do Ó por meio de projetos na quadra. A escola atribui a ele a frase que virou símbolo da sua missão comunitária: “O que mais nos orgulhamos é que no bairro não existem crianças nos semáforos.”
Sua homenagem póstuma veio em partes: a quadra da escola leva seu nome. Em 2021, uma escultura com sua imagem foi inaugurada na sede, na data em que ele completaria 88 anos. Em 2024, a escola de samba Amizade Zona Leste, do Grupo de Acesso 2, prestou-lhe homenagem no Anhembi com o enredo “Eduardo Basílio — Um Mar de Rosas de Ouro do Quilombo da Brasilândia para o Mundo”. Não é comum um presidente de escola ser homenageado por uma agremiação rival. Basílio merecia.

Angelina Basílio: filha do samba
Quando Angelina Basílio assumiu a presidência em 2003 — após a morte do pai — ela herdou simultaneamente o cargo, uma dívida e a expectativa de uma escola inteira. Sua primeira declaração pública foi clara: “Vou continuar os sonhos que o Presidente Basílio acalentava.” E foi exatamente o que fez.
Em 2004, quase foi rebaixada — a escola ficou nas últimas posições e chegou perigosamente perto do Grupo de Acesso. A experiência foi um choque que forçou uma reestruturação completa. A contratação do carnavalesco Jorge Freitas, que ficaria na escola por oito anos consecutivos (2006–2014), foi o divisor de águas: com Freitas, a Rosas construiu uma estética de alto luxo e acabamento impecável que se tornaria a assinatura visual da escola nos anos 2000 e 2010, e que renderia o título de 2010.
2010: nota máxima e o polêmico patrocínio do cacau
O carnaval de 2010 foi um marco absoluto. O enredo “Cacau: Um Grão Precioso que Virou Chocolate” era, supostamente, patrocinado pela empresa Cacau Show — o samba original tinha no refrão “Tá na boca do povo, o cacau é show”. Às vésperas do desfile, segundo relatos, por pressão da Rede Globo (que transmitia os desfiles e não aceita publicidade no conteúdo), a escola alterou a letra para “o cacau chegou”. A polêmica ficou registrada, mas o desfile aconteceu — e foi perfeito.
A Rosas terminou com 270 pontos — pontuação máxima possível — e foi campeã com folga. Foi o sétimo título da história e o primeiro em 16 anos. A escola chegou ao Sambódromo com alegorias que perfumavam a avenida: carros liberavam essência de rosas durante o desfile, deixando o Anhembi tomado por um aroma que ninguém esqueceu. Uma produção que resumia tudo o que a escola tinha aprendido sobre o carnaval espetáculo.
Os vice-campeonatos contra a Mocidade: a grande rivalidade
Nos anos seguintes ao título de 2010, a Rosas de Ouro viveu um período de absoluta consistência técnica — e de frustração nos resultados. Entre 2012 e 2014, a escola terminou vice-campeã três vezes consecutivas, sempre perdendo para a Mocidade Alegre. Os desfiles eram elogiados unanimemente, os acabamentos impecáveis, a pontuação altíssima — mas o título não vinha.
O ponto mais dramático dessa série foi o carnaval de 2012: durante a leitura das notas do quesito Comissão de Frente, um homem invadiu a área restrita, roubou e rasgou as duas últimas notas. Como não havia cópias digitais à época, a Liga reuniu os presidentes das escolas e decidiu, depois de horas de deliberação, manter o resultado parcial — que dava o título à Mocidade Alegre e o vice à Rosas. Um dos episódios mais insólitos da história do carnaval paulistano.
O carnaval de 2014 e a chuva de granizo
Em 2014, antes de entrar na avenida com o enredo “Inesquecível”, a Rosas de Ouro encarou um temporal de granizo na concentração do Anhembi — algo nunca visto antes no sambódromo. “Eu ainda estou assustada, pois a gente tomou uma chuva de pedra na concentração”, disse Angelina Basílio à TV Globo. O desfile aconteceu mesmo assim. A escola ficou em terceiro lugar — mais um vice perdido por frações de ponto.

2025: campeã de última nota — e o grito da Brasilândia
O jejum de 15 anos sem título terminou da forma mais dramática possível. Em 2025, a Rosas de Ouro levou ao Anhembi o enredo “Rosas de Ouro em uma Grande Jogada” — uma viagem pela história dos jogos, desde a Grécia Antiga até os videogames. Quando o enredo foi anunciado, o mundo do samba especulou sobre patrocínio de casas de apostas. A escola respondeu com arte: o carro da Nintendo encantou crianças, o setor dos jogos clássicos virou poesia, e o conjunto foi um dos mais equilibrados e elogiados da temporada.
A apuração foi um drama de horas. A escola chegou ao último quesito, do último jurado, sem saber se venceria. Na última nota lida, a Rosas de Ouro sagrou-se campeã — o oitavo título da história, o primeiro sob Angelina Basílio como única vencedora (ela assumiu em 2003 mas o título viria em 2010). Cinco dos nove quesitos receberam notas máximas. E então veio o grito: “Aqui é Brasilândia, porra!” — repetido incontáveis vezes pela presidente em todas as entrevistas daquela noite.
2026: o rebaixamento histórico — e a pasta que não chegou
O que aconteceu em 2026 com a Rosas de Ouro não tem precedente recente no carnaval paulistano. A escola chegou ao Anhembi como campeã vigente, com o enredo “Escrito nas Estrelas” — uma jornada do Big Bang aos zodíacos, com alegorias de luz que impressionaram o público. Saiu rebaixada. E a causa principal não foi artística.
A Liga das Escolas de Samba havia estabelecido que as pastas técnicas — documentação entregue aos jurados com informações sobre o desfile — deveriam ser impressas e enviadas até as 23h59 de segunda-feira, 9 de fevereiro. A Rosas de Ouro não cumpriu o prazo. Foi a única entre as 32 escolas dos três grupos (Especial, Acesso 1 e Acesso 2) a descumprir a obrigação. A punição foi automática: 0,5 ponto descontado da pontuação final.
O cálculo do rebaixamento
A Rosas terminou com 268,4 pontos. Sem a punição de 0,5, teria 268,9 — dois décimos acima da 11ª colocação (268,7 pontos da Estrela do Terceiro Milênio). A escola teria escapado do rebaixamento por exatamente dois décimos. Em nota, a diretoria pediu desculpas e classificou o episódio como “um dos dias mais difíceis da história” da escola. Nas redes sociais, o comentário que mais circulou: “Das 32 escolas, a Rosas foi a ÚNICA que não entregou a pasta.”
O desfile de 2026 teve ainda outro percalço fora do controle da escola: o cortejo da Rosas saiu com mais de uma hora de atraso, porque um carro alegórico da Acadêmicos do Tatuapé (que desfilou antes) vazou óleo na pista. Mesmo assim, o desfile foi realizado com qualidade — o quesito Enredo recebeu notas máximas de todos os jurados. Não foi suficiente. A escola que nunca havia sido rebaixada em 51 desfiles consecutivos no Grupo Especial desceu pela primeira vez — e pela mais dolorosa das razões.
O presente: rumo ao Acesso e à reconstrução
Em 2027, a Rosas de Ouro disputará o Grupo de Acesso 1 pela primeira vez na história. É também a primeira campeã vigente a ser rebaixada no carnaval paulistano desde os Gaviões da Fiel em 2004. A escola que nasceu de uma batucada em campo de várzea, que incluiu o azul nas cores por acidente, que foi construída por um homem que tirou crianças dos semáforos da Freguesia do Ó, e que foi campeã na última nota da última apuração em 2025 — essa escola não vai desaparecer do mapa do carnaval paulistano. Vai florescer novamente. É o que as Rosas de Ouro sempre fizeram.
Os 8 títulos da Rosas de Ouro — 1975 a 2026

