Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília.
De Soure, na Ilha de Marajó, para o barracão da escola mais glamourosa do carnaval carioca — sem nunca ter sido campeão, Milton Cunha construiu uma das trajetórias mais singulares do carnaval brasileiro, unindo erudição acadêmica, humor inconfundível e um amor pela cultura popular que transbordou das alegorias para as telas da TV.
Há uma história que Milton Cunha conta sempre que lhe perguntam como se tornou carnavalesco. Anísio Abraão David, o todo-poderoso presidente honorário da Beija-Flor de Nilópolis, queria abri-lo para o mundo do samba. Milton resistiu — era de ópera, de balé, de cinema, dizia. Então Anísio o desafiou: como você faria um balé? Milton pensou em Margaret Mee, a artista botânica britânica que trocou Londres pela Amazônia e passou décadas pintando flores entre os povos indígenas. Contou a história. O convite veio imediato. “Dormi psicólogo e acordei carnavalesco da Beija-Flor”, ele resume, com a naturalidade de quem sabe que às vezes o destino simplesmente bate à porta com uma fantasia de plumas na mão.
Milton Reis da Cunha Júnior nasceu em 19 de março de 1962, em Soure, na Ilha de Marajó, no Pará. Cresceu entre os búfalos e as águas do maior arquipélago fluviomarinho do mundo, numa família que não entendia — e não aceitava — quem ele era. Aos 19 anos, incompreendido pela família por sua homossexualidade, pegou os 100 reais que tinha e foi embora para o Rio de Janeiro. Nunca mais viu os pais pessoalmente. Na cidade, sobreviveu como assistente de produção de moda, passador de roupa, engraxate. Aprendia. Via gente. Fazia contatos. E estudava.
A formação acadêmica de Milton Cunha é impressionante para qualquer área — e extraordinária para o carnaval. Graduado em Psicologia pela UFRJ, especializou-se em Cenografia e Indumentária. Fez mestrado e doutorado em Letras e Ciência da Literatura, também pela UFRJ, tendo como tema a obra de Joãosinho Trinta. Acumulou pós-doutorados no Museu Nacional e no Museu Nacional de Belas Artes. Tornou-se professor universitário. E carreou toda essa bagagem intelectual para dentro dos barracões — com uma diferença fundamental: Milton nunca perdeu o contato com a rua.
A estreia que surpreendeu a Sapucaí
Em 1994, aos 32 anos, Milton entrou para o barracão da Beija-Flor de Nilópolis herdando o escritório que havia pertencido a Joãosinho Trinta — o maior nome da história da escola. A pressão era imensurável. O resultado: quinto lugar com “Margareth Mee, a Dama das Bromélias”, um desfile de rara sensibilidade, que aliava a precisão científica da personagem à exuberância visual da floresta tropical. A estreia colocou Milton imediatamente entre os melhores do carnaval carioca. Nos três anos seguintes, ele manteve a Beija-Flor entre os quatro primeiros — com dois terceiros lugares consecutivos em 1995 e 1996, os melhores resultados de toda a sua carreira de carnavalesco.
Veja a trajetória completa do carnavalesco com resultados, prêmios e carreira internacional
| Ano / Período | Escola / Projeto | Destaque |
|---|---|---|
| 1994–1997 | Beija-Flor de Nilópolis (RJ) | 5º (1994) · 3º (1995 e 1996) · 4º (1997) — herdou o escritório de Joãosinho Trinta |
| 1998–1999 | União da Ilha do Governador (RJ) | 🏅 Estandarte de Ouro (1998) · incêndio destruiu alegorias antes do desfile de 1999 |
| 2001 | Leandro de Itaquera (SP) | “Os Seis Segredos do Ariaú” · 8º lugar — única passagem por SP |
| 2002–2003 | Unidos da Tijuca (RJ) | 🏅 Estandarte de Ouro (2002) · enredo dos Agudás (2003) com destaque crítico |
| 2004–2005 | São Clemente (RJ) | 14º (rebaixamento em 2004) · 3º no Acesso (2005) — retorno ao Especial |
| 2006 | Unidos do Viradouro (RJ) | “Arquitetando Folias” · 3º lugar em comissão |
| 2007 | Unidos do Porto da Pedra (RJ) | “Preto e Branco a Cores” · 10º lugar · início internacional (Toronto) |
| 2008 | São Clemente (RJ) | Enredista convidado — “O Clemente, João VI no Rio” |
| 2009 | Unidos do Viradouro (RJ) | “Vira-Bahia, Pura Energia” · 8º lugar |
| 2010 | Acadêmicos do Cubango (RJ) / Argentina | Grupo de Acesso · atuação internacional (San Luis 2010–2013) |
| 2007–2012 | Brazilian Ball — Toronto | Carreira internacional como cenógrafo e curador |
O reconhecimento que veio pelo enredo
Embora nunca tenha sido campeão do Grupo Especial do Rio de Janeiro — lacuna que ele admite com gargalhada e bom humor —, Milton Cunha acumulou um reconhecimento que muitos campeões não têm: o prestígio pela qualidade dos enredos. O Estandarte de Ouro, o “Oscar do samba”, premiou essa qualidade por duas vezes. Seus trabalhos na Tijuca, na Beija-Flor e no Viradouro são lembrados pela profundidade temática, pela originalidade e pela capacidade de transformar conteúdo denso em espetáculo acessível.
Uma das marcas mais distintivas do trabalho de Milton é a escolha dos enredos. Enquanto muitos carnavalescos de sua época miravam civilizações antigas ou temas grandiosos do imaginário europeu, Milton flertava com o Brasil profundo — o Brasil que a avenida raramente via. Margaret Mee na Amazônia. A cultura afro-brasileira dos Agudás, os negros que retornaram à África carregando o Brasil no coração. A ilha de Todos os Santos com a cosmovisão iorubá. Não era coincidência: Milton pesquisava o Brasil para depois devolvê-lo em forma de desfile.
Essa abordagem o colocou num espaço peculiar dentro do carnaval — respeitado pelos intelectuais do samba por sua rigorosidade de pesquisa, admirado pela comunidade pelo calor com que entregava o conteúdo. “Saio da biblioteca e vou pro bar, beber e comer com os bêbados e com as prostitutas”, ele costuma dizer, explicando a natureza de sua formação. Era essa mistura — o doutor que vai ao botequim, o pesquisador que vai ao barracão — que definia sua maneira de ver o carnaval.
“Dormi psicólogo e acordei carnavalesco da Beija-Flor. Até hoje não sei exatamente como isso aconteceu — mas sei que foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.”
— Milton Cunha
Os 5 desfiles mais marcantes da carreira
1994 -Beija-Flor de Nilópolis
ESTREIA — 5º LUGAR
A estreia que ninguém esperava — e que mudou tudo. Convocado por Anísio Abraão David, Milton contou a história da naturalista britânica que trocou Londres pela Amazônia e passou décadas documentando artisticamente a flora da floresta. Ao assumir o escritório de Joãosinho Trinta, não tentou imitar o mestre — criou sua própria linguagem. O 5º lugar foi excepcional para uma estreia, e a Sapucaí reconheceu que um novo nome havia chegado ao carnaval carioca. Curiosamente, o mesmo enredo que Milton recusou num primeiro momento tornou-se o começo de tudo.
1995–96 – Beija-Flor de Nilópolis
3º LUGAR · DOIS ANOS SEGUIDOS
Os dois melhores resultados de toda a carreira de Milton como carnavalesco. Em 1995, uma homenagem à soprano brasileira Bidu Sayão, que encantou os grandes palcos do mundo e tornou-se lenda da música lírica. Em 1996, um olhar amplo e poético sobre a formação do povo brasileiro. Nenhum dos dois ganhou o título, mas ambos confirmaram Milton como carnavalesco capaz de sustentar alto nível por temporadas seguidas — e de mesclar cultura erudita com o esplendor visual exigido pela Deusa da Passarela.
1998 – União da Ilha do Governador
1º ESTANDARTE DE OURO – Fatumbi, Ilha de Todos os Santos
O enredo que rendeu a Milton seu primeiro Estandarte de Ouro. “Fatumbi” era o nome africano de Pierre Fatumbi Verger, o etnólogo e fotógrafo francês que dedicou a vida a documentar as religiões afro-brasileiras e a conexão entre a Bahia e a África. O desfile mergulhava na cosmovisão iorubá com profundidade e beleza visual, e a União da Ilha saiu da avenida com a cabeça erguida. O Estandarte confirmou o que a crítica já percebia: Milton sabia pesquisar, sabia criar e sabia contar histórias que a Sapucaí precisava ouvir.
2002 – Unidos da Tijuca
2º ESTANDARTE DE OURO
O segundo Estandarte de Ouro e o desfile que, nas palavras do próprio Milton, lhe rendeu “um prestígio gigantesco” — que o motivou a entrar definitivamente no mestrado. O enredo celebrava a língua portuguesa como fenômeno cultural de amplitude global: do Brasil a Portugal, de Angola a Moçambique, de Timor-Leste a Cabo Verde. Uma viagem de múltiplos mundos lusófonos contada com elegância visual e densidade temática que fez críticos e sambistas se inclinarem. Um dos trabalhos de maior amadurecimento intelectual da carreira de Milton.
2003 – Unidos da Tijuca
MARCO DA BRASILIDADE
Um dos enredos mais originais da história recente da Sapucaí. Os Agudás são os descendentes de escravizados libertos que retornaram à África Ocidental carregando consigo a língua portuguesa, a culinária, a arquitetura e a religiosidade absorvidas no Brasil. Milton descobriu nessa história uma das maiores ironias da diáspora africana: os que foram levados à força voltaram como embaixadores involuntários de uma cultura que não era originalmente a deles. O desfile era o Brasil olhando para a África e se reconhecendo — e a África devolvendo o olhar com o mesmo espanto. Um enredo de rara inteligência que fez a avenida parar para pensar.
Do barracão para a televisão
Em 1999, ainda antes de encerrar sua fase mais ativa como carnavalesco, Milton Cunha iniciou uma carreira paralela como comentarista — primeiro na TVE Brasil, depois na Band e na CNT, comentando os desfiles do Grupo de Acesso e das Campeãs, além do Festival de Parintins na Amazônia. A chegada à TV Globo em 2013 consolidou sua segunda vocação e o transformou no maior comunicador do carnaval brasileiro na televisão aberta.
A fórmula que o tornou amado pelo público é a mesma que o distinguia no barracão: a capacidade de traduzir o complexo em simples, o erudito em popular, o técnico em apaixonante. Milton fala de carnaval como quem conta uma história de botequim — com calor, com humor, com um vocabulário que mistura a alta cultura com a sabedoria das ruas. Além do Brasil, levou o carnaval para Estocolmo, Londres, Joanesburgo, Buenos Aires, Tóquio e Toronto. Em 2015, lançou o livro “Carnaval é Cultura: Poética e Técnica no Fazer Escola de Samba”, pela Editora Senac, com mais de 500 imagens que documentam o processo criativo da folia carioca.
A história de Milton Cunha é, no fundo, uma história de reinvenção permanente. Um menino de Marajó que chegou ao Rio sem dinheiro, dormiu psicólogo e acordou carnavalesco da escola mais glamourosa do Brasil — e que, mesmo sem um título oficial, se tornou um dos homens mais importantes da história do carnaval carioca. Porque o carnaval, como Milton sempre insistiu, não é só o que acontece na avenida em fevereiro. É o que acontece na alma do Brasil o ano inteiro.
