Viviane Araújo. Foto: Dhavid Normando
Uma posição sem regra no regulamento
A origem exata do posto tem versões concorrentes. Parte dos estudiosos aponta Nãnãna da Mangueira como primeira rainha de bateria da história, em São Paulo, em 1973, à frente da Mocidade Alegre. No Rio, a mais documentada e citada é Eloína. O cargo só ganhou o nome “rainha de bateria” e passou a ser reconhecido oficialmente pelas escolas a partir de meados dos anos 1980.

1976: Eloína dos Leopardos inaugura tudo
A origem do posto é inseparável de uma figura extraordinária e ainda pouco celebrada: Eloína dos Leopardos. Em 1976, o carnavalesco Joãosinho Trinta — estreando na Beija-Flor de Nilópolis com o enredo “Sonhar com Rei Dá Leão” — precisava de uma figura capaz de personificar a grandiosidade que ele queria para a escola. A indicação veio do figurinista Viriato Ferreira, que ficara encantado com Eloína em um baile de carnaval no ano anterior, onde ela disputou concurso com biquíni branco e penas de faisão.
Eloína era uma artista trans que construíra carreira nos palcos de Paris, onde foi estrela da boate Le Carrousel de Paris. No dia do desfile, Joãosinho Trinta simplesmente a posicionou à frente da bateria. O impacto foi imediato: a Beija-Flor venceu o carnaval de 1976 — e Eloína ficaria no posto por três anos consecutivos, período em que a escola se tornaria tricampeã. Ali nascia, de forma não planejada, um dos personagens mais icônicos da festa.
A Mocidade e a popularização do posto
A Mocidade Independente de Padre Miguel tem papel central nessa história. A escola de Padre Miguel foi uma das primeiras a institucionalizar a figura da mulher à frente da bateria. Em tempos anteriores a Monique Evans, o posto já havia sido ocupado por Adele Fátima — modelo que fazia comerciais e era uma das musas do país — consolidando o modelo da musa-celebridade que a Mocidade tornaria referência.
Mas foi em 1985 que tudo mudou de vez. Quem estava à frente da bateria da Mocidade? Monique Evans — modelo, atriz, presença constante no Cassino do Chacrinha e uma das mulheres mais celebradas do Brasil naquele momento. A fantasia pequena, o corpo escultural e o samba espontâneo dela diante das câmeras de televisão plantaram na memória coletiva o que seria, dali em diante, a rainha de bateria do carnaval carioca.
“Foi por acaso que eu caí ali naquele posto. Saí para curtir, viver a experiência. Nem a letra do samba eu sabia.” — Monique Evans, ao Gshow, sobre sua estreia na Mocidade em 1985.
Monique reinou na Mocidade até 1987 e depois passou por São Clemente, Estácio de Sá, União da Ilha e Grande Rio. Sua última passagem pela Sapucaí foi em 2014, quando a Mocidade comemorou os 30 anos do Sambódromo e a celebrou como ícone da era de ouro da folia. Ela foi, sem exagero, a responsável por fixar o nome e a ideia do posto para todo o Brasil.

Os anos dourados: Luma, Luiza e a Beija-Flor
Com a vitrine nacional que a TV Globo proporcionava, os anos seguintes foram de multiplicação. Escolas de samba de todo o Rio passaram a buscar musas e celebridades para o posto, e duas rainhas se tornaram absolutamente centrais nessa história.
Luiza Brunet chegou ao carnaval pelo mesmo caminho que Eloína: um convite de Joãosinho Trinta, em 1981, para desfilar na Beija-Flor. A elegância da modelo — que se tornaria uma das mais famosas do Brasil e depois uma das principais ativistas contra a violência doméstica — marcou uma geração e ajudou a elevar o padrão estético do posto.
Luma de Oliveira, por sua vez, é talvez a rainha mais abrangente da história do carnaval carioca. Entre 1987 e 2009, ela desfilou pela Portela, Tradição, Caprichosos de Pilares e Viradouro — escola com a qual teve seus desfiles mais icônicos nos anos 1990 e 2000. Seu reinado durou mais de duas décadas e foi tão marcante que, em 2012, a Estácio de Sá a homenageou com o enredo “Luma de Oliveira: Coração de um País em Festa”. Em 2023, durante o Desfile das Campeãs, as rainhas Viviane Araújo e Sabrina Sato pararam o desfile para reverenciá-la nas frisas — um gesto espontâneo que diz tudo sobre seu legado.
Viviane Araújo: a rainha das rainhas
Se existe um nome que sintetiza o que é ser rainha de bateria no carnaval contemporâneo, esse nome é Viviane Araújo. Estreando na avenida em 1995, ela passou pela Mocidade antes de chegar ao Salgueiro em 2008 — e nunca mais saiu. À frente da Bateria Furiosa, Viviane conquistou seu primeiro título com a escola logo no segundo ano, em 2009, com o enredo “Tambor”.
O que diferencia Viviane das demais não é apenas a longevidade — mais de 15 anos ininterruptos no Salgueiro — mas a forma como ela ocupou o posto. Ela frequenta a quadra, participa dos ensaios, conhece a comunidade pelo nome. É rainha em São Paulo também, à frente da Mancha Verde. Não por acaso, o presidente do Salgueiro, ao homenageá-la pelos 15 anos, usou a expressão que o torcedor já adotara de tanto repetir: “a melhor rainha de bateria.”

Por que a rainha importa — além da fantasia
A função da rainha de bateria ultrapassou em muito o aspecto ornamental. No carnaval contemporâneo, ela cumpre ao menos três papéis estratégicos para a escola.
O primeiro é a visibilidade. Uma rainha famosa garante cobertura de imprensa antes, durante e depois do carnaval. Quando Paolla Oliveira desfila pela Grande Rio, ou quando Evelyn Bastos conduz os ritmistas da Mangueira, o nome da escola aparece em veículos de todo o país nos dias que cercam o desfile — uma exposição que nenhum orçamento de marketing conseguiria comprar.
O segundo é a captação de recursos. Rainhas famosas atraem patrocinadores. O figurino de uma rainha de destaque pode ser assinado por uma marca, financiado por um patrono ou transformado em parceria comercial. Nos bastidores do carnaval, o posto de rainha de bateria é também uma negociação — e as mais disputadas têm empresários, agentes e contratos envolvidos.
O terceiro, menos visível mas igualmente relevante, é a ligação com a comunidade. As rainhas que constroem laços reais com a escola — e não apenas aparecem no dia do desfile — tornam-se um elo entre a agremiação e um público mais amplo. Isso tem valor simbólico e prático. Não é coincidência que as rainhas mais queridas pelas torcidas são exatamente aquelas que frequentam a quadra fora do carnaval.

A nova geração: raiz e avenida
O carnaval contemporâneo apresenta um fenômeno interessante: a convivência entre dois perfis distintos de rainhas. De um lado, as famosas convocadas de fora — atrizes, apresentadoras, influenciadoras. De outro, uma nova geração de rainhas criadas dentro das próprias escolas, que chegaram ao posto pelo samba no pé e pelo amor à agremiação.
Evelyn Bastos, rainha da Mangueira desde 2014, é filha de Valéria Bastos — ela mesma uma rainha histórica da verde-e-rosa nos anos 1980. Cresceu na escola, preside a Mangueira do Amanhã e conhece cada palmo da avenida. Mayara Lima, do Paraíso do Tuiuti, é outro exemplo: cria da comunidade, foi coroada após anos na ala de passistas e rouba a cena com coreografias elaboradas durante os desfiles.
Entre as famosas, Paolla Oliveira construiu na Grande Rio um vínculo genuíno — está no posto desde 2020 e já havia desfilado pela escola em 2009 e 2010. É presença constante nos ensaios e eventos da agremiação de Duque de Caxias, o que lhe valeu uma lealdade incomum para uma celebridade convidada.
E há ainda o caso da Beija-Flor — a escola que inventou tudo. Fiel à sua tradição, a agremiação de Nilópolis prefere rainhas criadas na própria casa. Lorena Raíssa, atual rainha com apenas 19 anos, foi coroada em concurso interno e estreou na Sapucaí em 2023. Uma continuidade que fecha, simbolicamente, o círculo iniciado por Eloína dos Leopardos meio século atrás.
