O Vai-Vai revelou o enredo que levará ao Sambódromo do Anhembi no Carnaval 2027. Intitulado “Os Três Obás de Xangô”, o tema celebra a amizade e o legado cultural de Dorival Caymmi, Carybé e Jorge Amado — três artistas que receberam o título honorífico de Obás de Xangô e que projetaram a Bahia, o candomblé e a cultura afro-brasileira para o mundo por meio da música, das artes plásticas e da literatura.
O lançamento aconteceu na Casa Sincopada, no bairro da Bela Vista, reduto histórico da agremiação.
O enredo é assinado pela dupla de carnavalescos Alexandre Louzada e Victor Santos.
Louzada retorna ao Bixiga para sua terceira passagem pela escola e será o padrinho de Victor, que estreia no cargo.
Nas redes sociais, o Vai-Vai publicou a sinopse completa do enredo. Confira:
Abertura – “São Três Obás de Xangô Sentados Ao Lado Do Trono De Mãe Stella De Oxóssi No Ilê Axé Opô Afonjá”
No princípio, não houve silêncio. Houve chamado. Era o axé recusando o esquecimento.
Antes da palavra, houve um sopro. Antes da terra, um destino traçado nas águas.
Nos caminhos de Ifá o renascimento de Oyó nas terras do novo mundo.
O mar guardou o que não podia morrer. E quando devolveu à margem, não eram apenas corpos, mas memória em estado de presença
Nos panos que dançam como chama, no ritmo que pulsa antes do som, a África se ergueu inteira. E no centro desse instante chega à pedra fundamental, pequena aos olhos e infinita no tempo, guardando o trovão, sustentando a memória e fincando Oyó em chão baiano. Não foi trazida, foi plantada. E foram mãos de mulher que a assentaram, que fizeram da dor coroa e do exílio reinado, erguendo um mundo onde antes havia ausência.
Na Barroquinha, o gesto funda a “Roma Negra”. A pedra se assenta e, com ela, se firma aquilo que não se rompe. Não é começo, é continuidade. O tempo passa a girar em outro sentido, o invisível ganha forma e o que era travessia encontra permanência.
Desse mundo nasce a ordem que sustenta o sagrado. Mãe Aninha organiza o poder e firma no llê Axé Opô Afonjá a presença de um reino vivo, criando os Obás de Xangô como aqueles que guardam, protegem e fazem o axé atravessar o mundo dos homens, traduzindo a linguagem de terreiro para a sociedade.
Com Mãe Senhora esse fundamento ganha corpo e permanência, com Mãe Stella de Oxóssi ganha voz, pensamento e horizonte, e o que era chama se torna estrutura, o que era rito se faz destino e o que é legado se torna eterno.
E então, tecendo o fio da memória, o mar se move outra vez. Atendendo a um chamado ancestral, abre caminho e entrega à terra um cortejo. Vem de Oyó, atravessando o tempo, chegando em outras areias depois de cruzar o mesmo mar, para abençoar os Obás do rei.
A procissão avança, levando no silêncio a resistência e no passo a continuidade. E acima dela, soberano, Xangô. E ele quem sustenta o destino, quem abençoa o percurso, quem garante que o legado siga. Sob sua força, nada se perde. Tudo se transforma. Tudo vive.
Xangô evoca seus Obás e os ergue como sentinelas de seu reinado na Bahia. E são três que atendem a esse chamado, três que transformam o axé em linguagem viva: Dorival Caymmi canta o tempo do mar e da terra e faz da vida memória e reza. Carybé desenha o invisivel e revela no traço a presença dos deuses entre os homens. Jorge Amado escreve o povo como eternidade e faz da palavra morada do sagrado. Eles não apenas representam, eles guardam, traduzem e projetam.
E assim, entre a pedra e o tempo, o mar e a memória, o que nasceu sagrado permanece.
Dorival Caymmi em 1956. Foto Arquivo Nacional – Domínio Público
Setor 02 – Caymmi: Obá Onikoyi – A Realeza Que Vem Do Mar
No dedilhar incomum do violão de Caymmi, a mão passeia e se enrosca nas cordas como quem tece uma rede.
Há ali o olhar atento e sereno do pescador, que se lança ao longe no ritmo ancestral de onde o Obá de Oyó soprou a inspiração.
É som que nasce das travessias, daquilo que um dia cruzou as vagas negreiras, e que encontrou, nas mãos ungidas de Mãe Senhora o caminho para fazer de Dorival um Obá de Xangô, um mensageiro do axé através de sua arte.
E na fé que sustenta esse canto, há uma luz que não se distancia nem se apaga. No Gantois, Mãe Menininha se faz presença contínua, brilho que não se mede no céu, mas se reconhece na terra. É ali que a mais bonita das estrelas permanece acesa, doce e soberana — a mais bela Oxum do Gantois.
Obá Onikoyi, guardião de um dom raro: traduzir em música a mistura que se dissolveu ao tocar as praias da
Bahia, essa terra feita de todos os santos e de todas as Áfricas.
Arauto do Alafin, cantor do mar, das dores e dos amores, do banzo e da lida, ele espalha em canto os saberes e os sabores de tudo que a Bahia tem!
E como as águas atravessam sua música, nasce a cadência que ecoa em toques de alujá, colorindo melodias com doçura. É o oceano que canta, ora manso, ora bravio, desenhando na linha do horizonte os sussurros e recados do mar. Um som que beira o silêncio, uma voz de encanto, um acalanto que escorre das conchas como pérolas, bordando de azul o espelho das águas e tecendo o manto sagrado da Rainha Iemanjá.
Nos acordes, cada nota se ergue como prece, carregada de fé, pulsando no axé dos terreiros.
É a força que empurra a jangada rumo ao mar, cântico e lamento que se alonga como o pôr do sol, luz que se despede nos olhos marejados dos que ficam. Na areia, permanece a saudade das morenas do bem-querer, enquanto velas brancas se afastam como procissão no horizonte, levando consigo a oração em um só pensamento.
E é no vento que conduz o sonho que a sorte se entrega às mãos de Deus, em pedido de bênção. Ali repousa o desejo de vencer a luta sobre o mar e a esperança do retorno. Um arrastão farto se anuncia, dádiva das águas, peixe bom a se espalhar na areia, como promessa cumprida, como vida que insiste em florescer.
Setor 03 – Carybé: Obá Onă Xokun – Caminhos e movimentos as cores
Se do verso, do verbo e da verdade nasceram canções como o espraiar das ondas, e das profundezas dessas águas brotou um cantar suave, qual encanto de sereia, foi nessa Bahia mística e misturada que a eternidade se pintou em cores.
Uma terra de muitas formas e sentidos, revelada sob a regência das mãos múltiplas de um forasteiro portenho que aqui se reinventou.
Nascido Héctor Bernabó, “abaianou-se” Carybé. Vestiu-se de crença, cobriu-se de axé e se fez escolhido de Xangô. Tornou-se Obá Onă Xokun, carregando a missão de traduzir a beleza em cor, entregando corpo, coração e alma ao seio dessa terra-mãe.
Sua paleta passou a percorrer ladeiras, escorrer das fachadas e desenhar a vida pulsante que habita cada canto.
Seu traço deu forma à gente das vielas, aos pés descalços sobre as pedras, às histórias que nascem nas favelas.
Retratou os que rezam em igrejas e terreiros, os que se encontram na capocira, na luta e na brincadeira, e aqueles que dançam para o santo ou giram na alegria de um samba de roda.
Em cada gesto, revelou mãos que carregam ancestralidade, mãos que batem, que tocam, que se erguem, que se unem, que se oferecem em devoção e respeito, mãos que falam direto ao coração.
Mas também eternizou as mãos que contemplam. As que descansam o tempo, que se apoiam na face em silêncio, que se aninham nas soleiras ou se debruçam nas janelas. Mãos que pertencem às eiras e beiras marcadas pelo passado, onde o presente se desenha como tela viva.
E assim, entre traços e cores, Carybé transformou Salvador em eternidade.
Guardia de heranças, cidade primeira, matriarca adotiva que acolhe ao peito a face de tantos povos, tantos tons, tantas cheganças — uma Bahia que, em sua arte, nunca deixa de nascer.
Jorge Amado, 1972. Fundo documental: Correio da Manhã
Setor 04 – Jorge Amado: Obá Arolu – A Palavra Que Eterniza
Se no violão o mar aprendeu a cantar e no traço o sagrado se fez tangível, foi na palavra que a Bahia virou eternidade.
Na pena firme de Jorge Amado corre um rio de histórias sem fim, tinta que nasce do povo, é voz que vem do cais, do mercado, da feira, do dendê, do riso solto da rua, do corpo quente do viver.
É o Obá Arolu, senhor dos caminhos da gente, que fez do livro um terreiro e da Bahia um presente. Ali, dançam os orixás entre linhas, vestidos de carne e paixão: Xangô ergue seu fogo na justiça, Ogum abre estrada no coração.
Gabriela passa, flor e tempestade, cravo e canela no ar, liberdade vestida de corpo. Capitães da areia erguem seus olhos, meninos do mundo sem chão, mas no peito carregam estrelas e um destino maior que a mão.
E cada esquina de Salvador ganha nome, cor e voz: é o Pelourinho que canta história, é a memória viva em nós. São Terezas, Tietas e tantas Donas flor, tantas mulheres das letras de Jorge que se traduzem em faces do
Vai-Vai, que em seu cotidiano transpira baianidade.
Jorge escreve como quem reza, como quem samba, como quem vê; é palavra que vira caminho, é Bahia que pulsa sob a força da miscigenação.
Na Tenda dos Milagres, ergueu sua voz contra o preconceito, fez da ciência do povo um altar de resistência e revelou ao mundo a grandeza de quem nunca se curvou. E o Vai-Vai, que dessas coisas entende, arma sua tenda no meio da rua, faz do tambor palavra e põe o povo preto no lugar que sempre foi seu.
Nesse caminhar de memória, o Obá reencontra o Vai-Vai, velha conhecida que já cantou sua arte em poesia de avenida, e, de mãos dadas, palavra e tambor reafirmam seu legado, eternizando na passarela a força de um povo que jamais será calado.
E no coração da cidade, o Vai-Vai vai fazendo dessas coisas que só o povo entende, plantando Bahia no asfalto, como quem reconhece de longe um pedaço seu e resolve ficar. Porque há lembranças que não se perdem, apenas mudam de lugar, tal qual o Rio Saracura que deixou saudades ou o Rio Vermelho de Jorge
Amado, que já não existe mais. Mas essas memórias resistem e seguem vivendo, teimosas, no corpo e na alma de quem as carrega.
E quando a escola toma a rua, não é só desfile, é coisa antiga que desperta, é a Bahia se mostrando sem cerimônia, ali mesmo, no Bixiga, como o próprio Obá reconhece, viva no jeito do Vai-Vai, no seu povo, no seu samba, nessa força que não pede licença e nem se explica, só acontece.