Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
A origem: turma do Vae-Vae
Curiosidade histórica
O apelido “Vai-Vai” veio antes da fundação formal. Como o grupo de Livinho e Sardinha costumava aparecer sem ser convidado e depois partir — indo e vindo — nos eventos do Cai-Cai, ficaram conhecidos como “a turma do Vae-Vae”. O nome, portanto, não foi escolhido: foi imposto pelos rivais como apelido pejorativo e depois transformado em identidade. Nada mais Vai-Vai do que isso.
Os primeiros baluartes e o Criolé
Nos anos 1930 e 1940, o cordão cresceu com a força da comunidade do Bixiga. Genésio, “O Baliza”, apesar da estatura pequena, tornava-se um gigante à frente do cortejo com seus malabarismos. Tino e Leco formaram uma parceria de compositores que rendeu sambas clássicos. O músico profissional Baiano anunciava a chegada do Vai-Vai pelo bairro tocando seu clarim. E Pé Rachado — Sebastião Amaral — era um dos cardeais do samba paulista, presença em todas as crises e glórias da agremiação.
Foi nesse período que nasceu o Criolé, a mascote e identidade visual do Vai-Vai: uma caricatura do sambista do Bixiga, aquele que personifica a escola ao vestir as cores preto e branco. O Criolé não é apenas uma fantasia — é a alma do Vai-Vai, o símbolo de que a escola pertence ao povo que a criou, ao “crioulo do Bixiga” que ensaiava nas ruas de terra batida antes de haver sede, cadeira ou palco.

A Tiradentes: reinado de chão
Em 1972, o cordão se transforma oficialmente em escola de samba — Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai. A mudança não foi só de nome: bateria com tamborim, pandeiro e cuíca substituíram os instrumentos pesados do cordão; o estandarte cedeu lugar ao pavilhão; nasceram a comissão de frente e a ala das baianas. O carnaval paulistano já tinha um sambódromo informal: a Avenida Tiradentes, onde as escolas disputavam o título ao ar livre.
O primeiro título como escola de samba veio logo em 1978, com o enredo “Na Arca de Noé, quem entrou não saiu mais”. A estética era a da escola de chão: menos carro alegórico, mais canto. A Vai-Vai vencia com a voz da comunidade, com a evolução compacta, com a “Pegada de Macaco” da bateria — apelido que traduz o jeito visceral e percussivo com que os ritmistas comandam o Mestre Solano.
O período entre 1978 e 1988 é o mais glorioso da história da escola na Tiradentes. Nessa década, a Vai-Vai conquistou seis títulos: 1978, 1981, 1982, 1986, 1987 e 1988. O tricampeonato consecutivo de 1986-87-88 é o pico desse período — três anos seguidos dominando o carnaval paulistano, pavimentando o caminho para a transição para o Sambódromo.
1991: o Sambódromo e a nova exigência
Com a inauguração do Sambódromo do Anhembi em 1991, o carnaval paulistano mudou de patamar. A escola de chão precisava aprender a fazer “carnaval espetáculo” — com alegorias monumentais, fantasias elaboradas, cronometragem rígida. A Vai-Vai demorou para se adaptar: os primeiros anos no Sambódromo foram de vice-campeonatos e colocações medianas, com os títulos indo para escolas que dominou mais rapidamente a nova linguagem do espetáculo.
A virada veio sob a gestão de Solon Tadeu, nome central na profissionalização da escola nos anos 1990. Com enredos que combinavam o orgulho afro-brasileiro com a escala visual que o Anhembi exigia, a Vai-Vai montou uma máquina vencedora. O carnaval de 1993, com “Nem Tudo que Reluz é Ouro”, devolveu o título ao Bixiga — o primeiro no novo sambódromo. Em 1996, novo título, com “A Rainha, a Noite Tudo Transforma” — o único samba vencedor da escola escrito por uma mulher, Vilma Corrêa.
O tetra do Anhembi: 1998–2001
O que a Vai-Vai fez entre 1998 e 2001 é único na história do carnaval paulistano no Sambódromo: quatro títulos consecutivos, o chamado “Tetra do Anhembi”. A sequência começou com “Banzai! Vai-Vai” (1998), que celebrou a relação afro-italiana-oriental do Bixiga com a comunidade japonesa paulistana. Em seguida vieram “Nostradamus” (1999), “Vai-Vai Brasil” (2000) e “O Caminho da Luz, a Paz Universal” (2001).
Foram quatro anos de desfiles de alto nível técnico e estético, com fantasias refinadas e alegorias que mostravam uma escola que havia aprendido a linguagem do espetáculo sem perder a força de massa. O intérprete Thobias da Vai-Vai era o centro emocional desses desfiles — uma voz marcante que se tornou símbolo da escola e ajudou a conduzir a comunidade por toda a avenida.
Valdina Soares, veterana da escola, à pesquisadora do projeto Vermelho
Enredos marcantes: a escola como porta-voz
Uma das marcas da Vai-Vai ao longo da história é o comprometimento com enredos de conteúdo — especialmente aqueles que resgatam a história negra e periférica de São Paulo. Em 1973, ainda na Tiradentes, a escola apresentou “História das Quebradas do Mundaréu”, em parceria com Plínio Marcos, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde — um desfile radicalmente político para sua época.
Em 2011, o título de “A Música Venceu” foi uma declaração de amor à MPB, numa época em que o carnaval paulistano ainda debatia se devia apostar em enredos comerciais ou culturais. Em 2015, “Simplesmente Elis” — homenagem a Elis Regina — foi o desfile mais elogiado daquele carnaval, com Gilsinho conduzindo uma escola emocionalmente comprometida com o legado da cantora.
Em 2017, a escola homenageou Menininha do Gantois com um dos sambas mais bonitos de sua história: “No xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu…” Em 2024, voltou ao Especial após ano no Acesso com “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop”, reafirmando sua posição como porta-voz das culturas periféricas de São Paulo.

A crise: rebaixamentos e o ciclo do ioiô
O século XXI trouxe instabilidade. Após o Tetra, a escola alternou anos de título (2008, 2011, 2015) com desempenhos medianos e problemas financeiros. Em 2019, o primeiro rebaixamento da história da escola para o Grupo de Acesso — um choque para a maior campeã do carnaval paulistano. Voltaram em 2020, foram rebaixados novamente em 2022 (14º lugar, 269,1 pontos), retornaram ao Acesso 1 para 2023, venceram a divisão naquele ano e subiram de volta ao Especial para 2024.
Esse ciclo de rebaixamentos e retornos tem causas estruturais: a falta de sede definitiva afeta os ensaios e a produção do desfile; a instabilidade administrativa e as disputas internas entre diferentes grupos de gestão prejudicam a continuidade dos projetos; e a dificuldade de captação de patrocínios, em parte decorrente das crises de imagem, fragilizou o orçamento da escola.
O Carnaval 2026: Vera Cruz e a dura realidade
Para 2026, a Vai-Vai levou ao Anhembi o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia” — uma homenagem à Companhia Cinematográfica Vera Cruz e à história operária de São Bernardo do Campo. O enredo tinha profundidade e coerência com a identidade da escola: cinema nacional, classe trabalhadora, a São Paulo que se industrializou às custas do suor do povo.
O resultado, porém, foi amargo. A escola terminou em 12º lugar com 268,6 pontos — apenas dois décimos acima da zona de rebaixamento. A bateria, historicamente um dos orgulhos da escola, recebeu a pior nota do quesito no carnaval de 2026, somando apenas 29,6 pontos — desempenho que a CNN Brasil apontou como um dos que mais surpreendeu negativamente na apuração, ao lado do Império de Casa Verde. Para uma escola cujo apelido de bateria é “Pegada de Macaco”, esse resultado representa uma ferida simbólica além dos números.
2026 em números
Colocação: 12º lugar · Pontuação: 268,6 · Bateria: pior nota do carnaval no quesito (29,6) · Enredo: “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia” (Cia. Cinematográfica Vera Cruz) · Ordem de desfile: 6ª escola na noite de sexta-feira
A sede: um nó que ninguém consegue desatar
A questão da sede é o problema mais urgente e mais simbólico da Vai-Vai contemporânea. Em setembro de 2021, a escola deixou o endereço que ocupava há mais de 50 anos — a esquina da Rua São Vicente com a Rua Doutor Lourenço Granato, as “Cinco Esquinas” do Bixiga — para dar lugar à Estação 14 Bis da Linha 6-Laranja do Metrô.
A Acciona, construtora responsável pela Linha 6, ficou de construir uma nova sede para a escola a cerca de 550 metros do endereço original, na Rua Almirante Marques de Leão. O problema: o novo espaço, por estar em área residencial, impediria a realização de ensaios pelo barulho — servindo apenas como sede social. Sem poder ensaiar no Bixiga, a escola perdeu seu elo mais poderoso com a comunidade que a criou.
Em setembro de 2025, a escola apresentou uma nova proposta: quer os terrenos do antigo Teatro Zaccaro e da Fábrica Elin, na Rua Rui Barbosa — também no Bixiga — para instalar sua nova sede e um centro cultural comunitário. Em troca, oferece à Prefeitura os terrenos da Rua Rocha e da Almirante Marques Leão para construção de moradia social destinada preferencialmente à população negra, conforme determina o Plano Diretor. A negociação segue aberta.
Enquanto isso, a escola realiza ensaios na Avenida Salim Farah Maluf (ensaios de rua), e o barracão de alegorias funciona na Fábrica do Samba, na Avenida Dr. Abraão Ribeiro, 497. A situação é de nomadismo cultural — e cada metro de distância do Bixiga é um centímetro de distância da identidade que fez a escola.
O presente e os olhos para 2027
A Vai-Vai chega a 2027 em reconstrução. O 12º lugar em 2026 — com a pior nota de bateria do carnaval — foi um sinal de alerta que não pode ser ignorado. A escola permanece no Especial (as rebaixadas foram Rosas de Ouro e Águia de Ouro), mas a margem de segurança foi estreita demais para uma agremiação da sua tradição.
Os pilares da retomada serão os de sempre nessas horas: resolver o nó da sede, estabilizar a gestão interna, reconstituir a bateria que foi a “Pegada de Macaco” e encontrar um enredo que mobilize a comunidade. A escola tem todos os ingredientes para voltar ao topo — 15 títulos, uma torcida que não tem rival entre as escolas sem vínculo com times de futebol em São Paulo, e uma história que é, em si, um enredo de resistência.
A Vai-Vai é, como sempre foi, maior do que qualquer resultado de apuração. É instituição. É nação. É o Bixiga em movimento — mesmo quando o Bixiga, por força das obras do metrô, ainda não sabe exatamente onde está.
Os 15 títulos no Grupo Especial

