Havia, em cada croqui que Rosa Magalhães desenhou ao longo de mais de cinco décadas, algo que os especialistas raramente conseguem nomear com precisão: a capacidade de tornar o erudito popular e o popular erudito, sem que nenhum dos dois perdesse sua essência. Ela levou Catarina de Médici para dançar com os Tupinambôs. Fez um jegue vencer um camelo no Ceará e ganhar campeonato com isso. Contou a história da cana-de-açúcar como ninguém havia contado. E fez tudo isso sem perder o sorriso característico, sem perder a elegância, sem perder aquela espécie de leveza intelectual que era, ao mesmo tempo, sua marca e seu segredo.

Rosa Lúcia Benedetti Magalhães nasceu no Rio de Janeiro em 8 de janeiro de 1947, filha de dois gigantes da cultura brasileira: o jornalista e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior — que integrou o júri do primeiro desfile de escolas de samba do Brasil, em 1932 — e a dramaturga Lúcia Benedetti. Cresceu cercada de livros, palavras e criatividade. Formou-se em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, depois em Cenografia e Indumentária. Tornou-se professora na mesma instituição. E foi exatamente como aluna que o carnaval bateu à sua porta.

O chamado de Fernando Pamplona

Em 1971, Fernando Pamplona — carnavalesco revolucionário que havia transformado o Salgueiro nos anos 1960 — convidou a jovem Rosa para integrar seu grupo de assistentes no barracão da escola de São Cristóvão. Ali, ela encontrou uma geração: Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Lícia Lacerda. Cada nome, uma forma diferente de ver o carnaval. Rosa absorveu tudo — a rigorosidade técnica de Pamplona, o senso de luxo de Trinta — e foi desenvolvendo uma linguagem própria: densa, pesquisada, visualmente intrincada, mas sempre capaz de emocionar a arquibancada.

Depois de contribuir com figurinos para Beija-Flor e Portela, ela e Lícia Lacerda assumiram juntas, pela primeira vez com autonomia total, o carnaval do Império Serrano em 1982. O resultado foi um título imediato do Grupo Especial do Rio de Janeiro e um enredo que entrou para a história.

“Trajetória de Rosa Magalhães no carnaval – escolas, títulos e principais desfiles”

Ano / Período Escola Destaque
1971 Salgueiro Assistente de Fernando Pamplona — figurinos do desfile campeão “Festa para um Rei Negro”
Década de 1970 Beija-Flor e Portela Figurinista e cenógrafa ao lado de Lícia Lacerda
1982–1983 Império Serrano 1º título como carnavalesca — “Bum Bum Paticumbum Prugurundum” (1982)
1984 Imperatriz Leopoldinense 4º lugar — Estandarte de Ouro de Personalidade
1985–1987 Tradição Comissão de carnaval com Viriato Ferreira, Maria Augusta e outros
1987–1991 Estácio de Sá “Ti-ti-ti do Sapoti” (1987), “O Boi da Bode” (1988), “Um, Dois, Feijão com Arroz” (1989)
1990–1991 Salgueiro 3º lugar (1990) e vice-campeonato (1991) como carnavalesca titular
1992–2009 Imperatriz Leopoldinense 5 títulos (1994, 1995, 1999, 2000, 2001) — maior parceria da história da escola
2010 União da Ilha do Governador Manteve a escola no Grupo Especial
2011–2013 Unidos de Vila Isabel Título em 2013 — “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo”
2014 Dragões da Real (SP) e Unidos de Lucas Primeira experiência como titular fora do Rio
2015–2016 São Clemente Estandarte de Ouro de Melhor Enredo (2015)
2017–2019 Portela Desfiles elogiados; destaque para homenagem a Clara Nunes (2019)
2020 Estácio de Sá 50 anos de carreira — escola rebaixada (único descenso)
2021–2022 Imperatriz Leopoldinense Retorno à escola; homenagem a Arlindo Rodrigues (2022)
2023 Paraíso do Tuiuti Último desfile — “Mogangueiro da Cara Preta” (8º lugar)

Uma coleção de conquistas sem igual

Os números de Rosa Magalhães são de outro planeta. Sete títulos no Grupo Especial do Rio de Janeiro, distribuídos por quatro décadas diferentes — feito que nenhum outro carnavalesco ou carnavalesca alcançou. Dez Estandartes de Ouro, o “Oscar do samba” concedido pelo jornal O Globo, que a tornaram a profissional mais premiada da história do prêmio em qualquer categoria. Mais de quarenta desfiles assinados. E, além das fronteiras do carnaval, um Emmy Internacional pelo figurino da abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, além da direção artística da cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

  • 7 Títulos no Grupo Especial do Rio (1982, 1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013)
  • 10 Estandartes de Ouro — recorde absoluto de premiações na história do prêmio
  • 40+ Desfiles assinados entre 1971 e 2023 — mais de cinquenta anos na avenida
  • 1 Emmy Internacional — Melhor Figurino pela abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007

Sua façanha de ser campeã em quatro décadas distintas — anos 1980 com o Império Serrano, anos 1990 e 2000 com a Imperatriz Leopoldinense e anos 2010 com a Vila Isabel — é a prova mais eloquente de uma qualidade rara entre artistas de qualquer área: a capacidade de se renovar sem perder a identidade. Enquanto o mundo do carnaval mudava ao redor, Rosa continuava sendo reconhecível — pelo rigor, pela pesquisa, pelo humor inteligente e pela beleza visual que nunca abdicava de conteúdo.

Ala da Bateria da Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 1998. Escola foi a terceira colocada no Grupo Especial com o enredo "Quase no ano 2000" da carnavalesca Rosa Magalhães. Foto de Fernando Maia.
Ala da Bateria da Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 1998. Escola foi a terceira colocada no Grupo Especial com o enredo “Quase no ano 2000” da carnavalesca Rosa Magalhães. Foto de Fernando Maia.

Por que o trabalho dela inovou o espetáculo

Rosa Magalhães foi, antes de tudo, uma pesquisadora. Sua alcunha — “a Professora” — não vinha apenas do fato de lecionar na UFRJ; vinha da maneira como ela tratava o carnaval como disciplina acadêmica. Cada enredo nascia de uma investigação: documentação histórica, fontes primárias, viagens, leituras. Ela foi a carnavalesca que introduziu sistematicamente a fundamentação bibliográfica e literária no processo de criação dos desfiles. Quando Rosa anunciava um enredo, havia por trás um conjunto de referências que poucos profissionais de qualquer área seriam capazes de mobilizar.

Mas o gênio de Rosa estava em não deixar que o peso intelectual sufocasse a leveza do espetáculo. Ela tinha humor — um humor fino e brasileiro, que aparecia nos títulos de enredo quilométricos, nas narrativas improváveis que funcionavam, no jegue que vencia um camelo e fazia cinquenta mil pessoas cantarem na Sapucaí. Ela sabia que o carnaval é festa antes de ser museu.

Outro aspecto transformador do seu trabalho foi o hibridismo visual. Rosa misturava o Renascimento europeu com símbolos ameríndios, a corte francesa com a floresta amazônica, o barroco com o popular. Esse cruzamento de referências culturais, que ela praticava desde os primeiros figurinos no Salgueiro, tornou-se uma linguagem própria — copiada por muitos, igualada por poucos. Também foi pioneira em incluir, de forma sistemática, fontes acadêmicas no processo criativo dos desfiles, algo que influenciou toda uma geração de carnavalescos que vieram depois.

“A Rosa é a régua. Ela é a régua com a justa medida do que é ser bom na contação de história, na produção de fantasia, na farra carnavalesca que pode alegrar, que pode ensinar, que pode denunciar.”

— Leandro Vieira, carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense

Os 5 desfiles mais marcantes da carreira

1982 – Império Serrano

1º TÍTULO

Bum Bum Paticumbum Prugurundum

A estreia como carnavalesca titular já foi um título. O enredo, sugerido por Pamplona, partia de uma onomatopeia do compositor Ismael Silva para contar a história das próprias escolas de samba e de suas três grandes fases. Era difícil, abstrato, metanarrativo — e Rosa e Lícia Lacerda conseguiram transformá-lo em algo visualmente deslumbrante e emocionalmente impactante. O desfile ganhou o Estandarte de Ouro e entrou imediatamente para o panteão do carnaval brasileiro. A mulher que havia começado como assistente uma década antes provava que havia chegado para ficar.

1994 – Imperatriz Leopoldinense

OBRA-PRIMA

Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e Tabajeres

Considerado por especialistas como o desfile mais bem elaborado da carreira de Rosa, este foi seu primeiro título com a Imperatriz — a escola com a qual ela construiria sua maior saga. O enredo recontava a visita de uma delegação de indígenas brasileiros à corte da rainha Catarina de Médici, em Paris, em 1550. A precisão histórica e a riqueza visual — que misturava o Renascimento francês com a estética dos povos originários brasileiros — criou um conjunto de alegorias e fantasias que redefiniu os padrões estéticos do carnaval. A preocupação com cada detalhe, dos adereços às fantasias, tornava o trabalho de Rosa uma obra de arte coletiva em movimento.

1995 – Imperatriz Leopoldinense

BICAMPEÃ · HUMOR E HISTÓRIA

Mais Vale um Jegue que me Carregue do que um Camelo que me Derrube, lá no Ceará!

Se em 1994 Rosa mostrou seu lado mais refinado e erudito, em 1995 ela provou que o humor inteligente pode ser tão poderoso quanto a sofisticação histórica. O enredo recuperava a inusitada expedição científica ao sertão do Ceará, ordenada por D. Pedro II, que incluiu a importação de camelos do norte da África — animais que não se adaptaram ao clima e levaram a missão ao fracasso cômico. A solução? Terminar a expedição de jegue. Rosa transformou esse episódio esquecido da história brasileira num espetáculo de cores e alegria que conquistou as ruas da Sapucaí e rendeu o bicampeonato. O título longo e absurdo, por si só, já era uma declaração estética.

1999–2001 – Imperatriz Leopoldinense

TRICAMPEONATO HISTÓRICO

Brasil mostra a sua cara (1999), Quem Descobriu o Brasil foi Seu Cabral (2000) e Cana-Caiana, Cana Roxa… (2001)

O primeiro tricampeonato consecutivo da Era Sambódromo. Três anos, três títulos, três enredos radicalmente diferentes entre si — mas todos unidos pela mesma assinatura inconfundível. Em 1999, um mergulho na obra do pintor holandês Eckhout, que retratou o Brasil do século XVII. Em 2000, a viagem de Pedro Álvares Cabral recriada com humor e precisão. Em 2001, a cana-de-açúcar narrada da cultura árabe ao Carlos Cachaça, cofundador da Mangueira. Rosa provou que consistência e inovação não são antônimas — são exatamente o que define um grande artista. Nenhum carnavalesco ou carnavalesca havia repetido tal façanha. Até hoje, nenhum repetiu.

2013 – Unidos de Vila Isabel

7º TÍTULO · ÚLTIMO CAMPEONATO

A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo — Água no Feijão que Chegou Mais Um

Doze anos depois do último campeonato, Rosa voltou ao topo. Com um samba-enredo composto por Martinho da Vila, Arlindo Cruz e outros grandes nomes do samba, e com enredo que celebrava o Brasil agrícola, a carnavalesca mostrou que longevidade não é contradição com excelência. O título foi reconhecido pela crítica e pelo público: Rosa ganhou o prêmio de Melhor Carnavalesca pela Veja Rio e o Troféu Tupi Carnaval Total. A Vila Isabel tinha conquistado seu terceiro título na história — e o havia feito com a maior carnavalesca de todos os tempos. Rosa tinha 66 anos. E nada a sugeria aposentada.

Além do carnaval

Rosa Magalhães não se limitou à Sapucaí. Trabalhou como cenógrafa em novelas e séries da TV Globo, atuou na peça “Calabar — Elogio da Traição”, de Ruy Guerra e Chico Buarque, e criou o cenário do ballet “Grande Circo Místico”, de Edu Lobo e Chico Buarque. Seus croquis foram expostos na Bienal de Veneza e na Prague Quadrennial. E quando o Brasil precisou de alguém para apresentar sua alma ao mundo nos Jogos Olímpicos de 2016, foi ela quem criou a cerimônia de encerramento — com samba, forró, frevo e Martinho da Vila cantando “Carinhoso”. A festa foi consagrada internacionalmente. Assim como Rosa.

Em 2022, ela doou à UERJ um acervo de 5.500 croquis originais de figurinos e alegorias — um presente imensurável para a história da arte e da cultura popular brasileira. E no carnaval de 2023, aos 76 anos, ainda foi ao barracão. Ainda foi à avenida. Ainda assinou um desfile. Não era teimosia — era fidelidade à vida.

Rosa Magalhães morreu em 25 de julho de 2024, aos 77 anos, vítima de um infarto, em sua casa em Copacabana. O carnaval de 2026 do Salgueiro foi dedicado a ela — com o enredo “A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e nem do Pirata da Pena de Pau”. Um título longo, absurdo e cheio de humor. Exatamente como ela gostava.

“Se o carnaval carioca alcançou a primazia como grande espetáculo visual, muito se deve a Rosa. Nossa escola tem por ela uma gratidão imensurável por ser um gênio artístico à frente do nosso último campeonato.”

— Unidos de Vila Isabel, nota oficial após o falecimento