Créditos Terry George - Wikipedia
Existe um momento no carnaval do Rio de Janeiro em que o ruído da bateria, os gritos da arquibancada e o brilho das alegorias se dissolvem diante de algo mais sutil — e mais poderoso. É quando Selminha Sorriso ergue o pavilhão azul e branco da Beija-Flor na Marquês de Sapucaí. Nesse instante, a porta-bandeira não está apenas cumprindo um quesito. Ela está rezando. E quem assiste sabe disso.
Selma de Mattos Rocha nasceu no Rio de Janeiro em 30 de maio de 1970 — ou 1971, conforme diferentes registros — e cresceu na comunidade de Parada de Lucas, acompanhando a mãe, Jacira de Matos, passista da Unidos de Lucas, nas quadras de terra batida onde o samba ainda tinha cheiro de quintal. Ali, menina, ela viu pela primeira vez uma porta-bandeira chamada “Boneca” girar com a bandeira da escola, e entendeu que aquele seria seu destino.
Os primeiros passos — de passista a diva da bandeira
A trajetória de Selminha começou onde começa a maioria: nas alas de passistas. Em 1986, ela já desfilava pelo Império Serrano, escola que frequentaria por anos antes de conquistar seu lugar principal na avenida. A virada veio após uma temporada de apresentações em casas de show no Japão, experiência que apurou sua elegância e a disposição física que marcaria toda sua carreira.
Em 1990, ela disputou uma vaga de segunda porta-bandeira no Império Serrano. Em 1991, assumiu o primeiro pavilhão — estreia que ela própria define como “a pior possível”. A escola desfilou com um enredo polêmico sobre caminhoneiros, recebeu notas baixas e acabou rebaixada ao grupo de acesso. Selminha pensou em desistir. Não desistiu. O destino respondeu logo no carnaval seguinte, em forma de um mestre-sala chamado Claudinho. Os dois se conheceram num evento no Palácio da Cidade e, juntos pela primeira vez em 1992 na Estácio de Sá, foram só notas 10 — e a escola conquistou seu primeiro título da história, com o enredo “Pauliceia Desvairada – 70 anos do Modernismo”. Naquele mesmo ano, Selminha já levou seu primeiro Estandarte de Ouro como porta-bandeira, com apenas dois anos na função. Uma revelação reconhecida na hora certa.

A chegada à Beija-Flor
Em 1996, o diretor de carnaval da Beija-Flor, o lendário Laíla, convidou o casal para defender o pavilhão azul e branco de Nilópolis. Era o começo de uma das parcerias mais longas e vitoriosas da história do carnaval carioca. Selminha e Claudinho chegavam a uma escola que, depois de 15 anos sem título, precisava reencontrar sua grandeza. E a encontrou.
Desde que pisou na Sapucaí pela Beija-Flor, Selminha foi transformando o próprio quesito. O casal, que começou desfilando à frente da bateria, foi pioneiro em se posicionar logo atrás da comissão de frente a partir de 2002 — mudança que alterou definitivamente a dinâmica visual dos desfiles. Enquanto muitos casais aderiram a passos de balé e coreógrafos contratados, Selminha manteve sua identidade: “Danço de anágua porque Dodô da Portela me ensinou assim”, ela costuma dizer. A referência às grandes tradicionais não é nostalgia — é fidelidade a uma escola que o samba ensinou a reverenciar.
A coleção de títulos e prêmios
A ficha técnica de Selminha Sorriso impressiona por sua consistência ao longo de décadas. São 12 títulos no total — um pela Estácio de Sá e 11 pela Beija-Flor —, além de uma coleção de premiações que a consagram como a maior porta-bandeira de sua geração e possivelmente da história.
Desde que chegou a Nilópolis, a dupla Claudinho e Selminha perdeu apenas décimos isolados em quesito — e não por acaso: a regra que descarta a menor nota entre os jurados praticamente garantia ao casal a pontuação máxima a cada desfile. Apenas em 2006, 2009 e 2011 houve mais de um 9.9 no placar — raridade que evidencia a regularidade quase sobre-humana da porta-bandeira.

O par inseparável: Claudinho
A relação entre Selminha e Claudinho vai muito além do quesito avaliado. Os dois carregam juntos, há mais de três décadas, o que a avenida viu de mais bonito no pavilhão: a fusão entre dois corpos que se conhecem tão bem que qualquer passo parece inevitável. Claudinho, cria do Morro de São Carlos, é o contraponto perfeito — sua presença firme e o olhar constante em direção à porta-bandeira criam a tensão dramática que faz a arquibancada prender a respiração.
Selminha sempre creditou ao parceiro parte essencial de sua segurança na avenida. “Bate o nervosismo até a hora de abrir os portões. Logo depois, passa. Se não, a Sapucaí é um gigante que te engole. Quando eu entro na pista, é como se eu dissesse: ‘Olha só, aqui é meu palco sagrado, meu sonho de infância'”. E é justamente esse ímpeto, essa mistura de reverência e domínio, que define o que Selminha e Claudinho fazem juntos.
Os 5 desfiles mais marcantes da carreira
Escolher cinco entre três décadas de excelência é arbitrário — e necessário. Estes são os momentos em que Selminha Sorriso não apenas desfilou: ela se imortalizou.
Por que o trabalho dela inovou o espetáculo
A inovação de Selminha Sorriso não está em piruetas ou passos de dança contemporânea. Está em algo mais difícil de nomear — e mais difícil de imitar. Ela redefiniu a porta-bandeira como uma figura sagrada da narrativa do desfile, não apenas como um quesito técnico. Sua presença comunica antes mesmo de qualquer giro: é a postura, o olhar, a relação com o pavilhão tratado como extensão do próprio corpo.
Outro aspecto revolucionário foi a longevidade. Selminha é a porta-bandeira há mais tempo consecutivo em uma única escola em toda a história da folia carioca — marca que supera ícones como Dodô da Portela, Mocinha e Neide da Mangueira, e Maria Helena da Imperatriz. Isso não é apenas uma estatística: é a prova de que é possível manter a excelência artística enquanto o corpo, a vida e o mundo mudam ao redor.
Sua influência se estende para além da avenida. Ela coordena o projeto social “Sonho do Beija-Flor”, formando novas gerações de porta-bandeiras e mestres-salas. É embaixadora da Federação Nacional do Samba e dá aulas para adultos com deficiência na FAETEC. Fora do samba, formou-se em Direito, fez pós-graduação em Inovação em Gestão Pública e, desde 2002, é 2ª sargento do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro — inspirada por um bombeiro que a socorreu num acidente de ônibus na Suécia, em 1992. Selminha Sorriso é, em todos os sentidos, uma mulher inteira.
